Vamos dar uma volta pelas páginas dos evangelhos...

.
.

Sinto-me cada vez mais encantado por Jesus de Nazaré, pela força com que nele se exprime a Vida, o melhor do Ser Humano e o agir de Deus.

E continua a acontecer eu ir dar uma volta pelas páginas dos evangelhos e encontrar-me com lugares de onde vejo as paisagens de sempre de uma maneira nova, e o próprio Jesus me aparece de repente de onde nunca me tinha dado conta que ele saísse ao meu encontro. Eu próprio me vejo novo!

Porque acredito que ele é o Vivente e que
está Comigo como Alguém que se Comunica, quero percorrer todos os trilhos e veredas dos testemunhos evangélicos à procura deste seu jeito de se comunicar. É sempre isso que procuro… porque é isso que ele, re-suscitado pelo Pai, continua a ser/fazer connosco.

A ressurreição não é o anúncio de que ele deixou de ser dos nossos e estar connosco para passar a ser só do Pai e a estar com ele no “quentinho” do Espírito! A ressurreição é o anúncio de que ele já não é só de meia dúzia e está só com esses, mas é de todos e está com todos! E é de todos e para todos com o mesmo jeito que o vimos ser com os primeiros. Foi esse jeito de ser e comunicar-se que o Espírito Santo Suscitou em Jesus no meio daquele povo e daquelas pessoas, e Re-Suscitou como dom para todos os povos e todas as pessoas.

Os Apóstolos, no primeiro anúncio que faziam da sua ressurreição, diziam sempre que tinha sido “ESTE” Jesus que o Pai tinha glorificado no Seu Amor e exaltado na força do Seu Espírito. “ESTE” Jesus do qual depois falam através dos testemunhos evangélicos…

Andei há procura do rosto de Jesus enquanto Mestre, Líder de discípulos e Sábio à volta do qual até se reuniram pequenas multidões… Como é que Jesus ensinava? Rasgos da sua pedagogia no trato com os discípulos… E com as multidões? Qual era a sua postura com as multidões? Como lidava com os adversários do seu anúncio, que não só se metiam consigo como às vezes tentavam “pegar” nos seus discípulos? Quais as experiências que estão no coração da sua sabedoria e da sua liderança carismática? E qual a pedagogia que está presente na sua maneira de ensinar e no jeito de relacionar-se com as pessoas?

O meu “método” para este tipo de procuras é sempre o mesmo: escolho um evangelho e meto-me por ele adentro com os olhos apontados para o que procuro. A partir daí, deixo-me levar…



SHALOM

1. Tudo começa na capacidade de acolher



Tudo começa com João, o Baptista, ou seja, tudo começa na capacidade de escutar e acolher outro. Jesus será sempre assim… Com João, com Deus, com os pobres e marginalizados do seu povo, com a própria realidade…

O primeiro que se revela em Jesus é esta sua abertura, a procura, a capacidade de sair ao encontro e disponibilizar-se a ser discípulo. Se calhar, todo o Mestre verdadeiro terá sido o melhor discípulo de alguém. Mas, de certeza absoluta, quem não tem a abertura de discípulo não tem também a sabedoria de mestre!

O evangelista Lucas tem o cuidado de dizer que Jesus tinha já cerca de 30 anos quando saiu de Nazaré e começou a anunciar a Boa Notícia. Cerca de 30 anos, num tempo em que se casavam adolescentes e a esperança média de vida rondava os 50 anos! Jesus já não era um jovem… A maior parte da sua vida viveu como discípulo, acolhendo, escutando, procurando… E assim o Espírito de Deus ia encontrando nele a abertura de Coração para o consagrar continuamente à sua missão filial.

Um momento decisivo para Jesus foi a prisão de João Baptista, que sentiu no seu íntimo como um apelo a continuar a missão de purificação de Israel para a chegada do Reino. Mas… tudo saiu transfigurado das mãos de Jesus…

A sua capacidade de escutar e acolher não se desliga em nenhum momento da sua capacidade de recriar e consagrar em Boa Notícia o que acontece à sua volta. Nós sabemos que o anúncio de João era duro, apocalíptico, associando a vinda do Messias com o Dia da Ira de Deus. Por isso era importante o “baptismo de penitência para o perdão dos pecados”.

No seu íntimo, Jesus não o experimentava assim… A escuta da pregação de João era transfigurada por uma experiência muito forte da bondade paternal de Deus e um discernimento muito profundo de todas estas coisas. É o que os evangelistas narram como a voz do céu aberto que lhe disse “Tu és o meu filho muito amado, o meu encanto”, e os quarenta dias no deserto experimentando a divisão (“Satan”, em hebraico, “Diábolos”, em grego, significam “divisão”, no sentido de separação, ruptura).

Por isso, o evangelista Marcos deixou este testemunho: “Quando prenderam João, Jesus foi para a Galileia para proclamar a BOA NOTÍCIA DE DEUS. E dizia: ‘Chegou o tempo! O reino de Deus está próximo! Convertei-vos e acreditai na BOA NOTÍCIA!” (Mc 1, 14-15)

Jesus vai ser sempre este anunciador de uma Boa Notícia de Deus, sobretudo para aqueles a quem os pregadores apocalípticos mais assustavam: os pecadores públicos, os impuros diante da Lei e das tradições do povo, os desprotegidos, os pobres…

Quando passava lá pelas povoações da Galileia e da Judeia, escutavam dele uma Boa Notícia em nome de Deus! Era tão raro, tão raro que em nome de Deus alguém lhes desse uma Boa Notícia! E a Boa Notícia era Deus mesmo, Ele mesmo, que transparecia no rosto e nas palavras daquele homem como digno de Fé, um Deus com uma bondade superabundante, capaz de pagar o mesmo aos trabalhadores da primeira e da última hora ou acolher o filho ingrato que tinha esbanjado a sua herança ainda em vida do pai…

A conversão que Jesus propunha não era a mudança diante da proximidade da Ira, mas diante de uma Bondade acima de toda a expectativa e merecimento.

O próprio João, na prisão, ouviu falar da acção de Jesus, esse a quem tinha conhecido tão bem lá nas margens do Jordão, certamente o seu discípulo mais especial no qual ele próprio reconhecera uma presença do Espírito de Deus que o enchia de esperança… Mas o discípulo só saía ao seu mestre na fidelidade e na ousadia, não no anúncio… E João, da prisão, mandou dois dos seus discípulos perguntar a Jesus: “Então mas és tu o que estava para vir, ou ainda vamos ter que esperar outro?!” (Lc 7, 18) Porque em Jesus não se realizavam as expectativas messiânicas do Profeta do deserto, nem os seus anúncios sequer coincidiam.

Esta capacidade de abertura criativa que se manifesta em Jesus, a sua capacidade de escutar e recriar no seu íntimo pela consagração ao Espírito e pela experiência do amor paternal de Deus, é muito visível também nele enquanto contador de parábolas. As parábolas que conta e os ensinamentos que propõe em forma de imagens e alegorias, revelam bem a sua capacidade de atenção a todas as coisas, a maneira como está aberto à realidade que o envolve, a introduz em si e a enche de sentido, cada gesto, cada acontecimento. Está mergulhado na realidade de maneira inteira e permanente, como quem se posiciona diante de uma palavra viva, uma comunicação que está a acontecer e tem que ser acolhida, discernida e transmitida. É assim que actua…

Não se abstrai do que está a acontecer diante de si, não passa ao lado da dinâmica da vida, e acolhe, escuta, vê, relaciona-se…
Depois, vemo-lo sair de casa várias vezes ainda antes de amanhecer e dirigir-se para o cimo de um monte orar a sós com o Pai, onde tudo é discernido, contemplado, transfigurado…
Por fim, encontramo-nos com ele no centro de uma praça ou num barco a falar à multidão a propor-lhes a Boa Noticia de Deus transmitindo-a com estas imagens e acontecimentos.

Começámos assim: Tudo começa com João, o Baptista, ou seja, tudo começa na capacidade de escutar e acolher outro. Jesus será sempre assim… Mas os evangelistas, na verdade, têm um horizonte de maior alcance… Tudo começa com Deus, o Pai, ou seja, tudo começa na capacidade de obedecer e ser filho. Jesus será sempre assim…

É a dimensão maior da sua capacidade de escutar e acolher, é a que Jesus vive em relação ao Pai: “O meu alimento é fazer a vontade do meu Pai” (Jo 4, 34). Diante do Pai, escutar e acolher significa deixar-se gerar por ele continuamente, e a capacidade de seguir e ser discípulo converte-se em viver a obediência filial sem limites nem condições.




SHALOM


2. Experiência de Predilecção



Não saberemos o que foi e como foi, mas certamente há no início da missão de Jesus uma experiência fortíssima da predilecção do amor de Deus, como um filho maravilhado diante de um Pai, associada a uma experiência de crise interior, de confronto com uma missão que ainda não era clara e exigia um discernimento que conduzisse a escolhas e consequentes rupturas. Tudo isto está ligado ao baptismo de Jesus, nas margens do Jordão.

Os evangelistas são muito sóbrios a testemunharem isto, e ao mesmo tempo quase poéticos, como tem de ser para narrar experiências destas: “Jesus fez-se baptizar por João no Jordão. Enquanto saía da água viu o Céu aberto e o Espírito descendo sobre ele como uma pomba. E ouviu-se uma voz do Céu: “Tu és o meu filho muito amado, o meu encanto”. Imediatamente, o Espírito levou-o ao deserto onde passou quarenta dias, e era tentado pelo divisor. Vivia com as feras e os anjos o serviam”. (Mc 1, 9-13)

É aqui que tudo se torna verdadeiramente seu! Na experiência definitiva do Céu aberto, do olhar de Deus, do amor de predilecção que o gera no seu íntimo como filho e encanto de Deus, como consagrado pelo Espírito que não “passa” sobre ele mas “desce” para o habitar…

Mas também na experiência profunda e dolorosa dos quarenta dias, símbolo bíblico do deserto e da preparação para os grandes começos, na experiência da crise, da divisão interior, do sentir-se no meio de dois mundos com forças tão opostos, entre feras e anjos…

Só depois disto começa a sua missão… Jesus é um homem profundamente habitado por aquilo que transmite, experimentado no encanto que isso gera e no confronto que exige. E nada disto é um momento só, certamente. O relato desta experiência de predilecção e de crise feita por Jesus não é simplesmente a narração de um momento da sua vida, mas uma parábola que nos aproxima de uma dimensão sempre presente nele.

O Céu não se fechou mais! O grande anúncio de Jesus, a “tal” Boa Notícia, é isso mesmo: “Deus está próximo, o Seu Reino está aqui, o Céu está aberto, a Salvação está ao alcance de todos…” Porque era muito exigente a salvação pela Lei: uma salvação exigida pela própria virtude, um Céu longínquo ao qual se chegava à força de braços, um Deus difícil que se conquistava à custa de muita coisa que os mais próximos de Jesus, na maior parte das vezes, não tinham para dar… mas a Boa Notícia é que o Céu se abriu e Deus mesmo veio encontrar-se com o Seu povo, veio consolar e curar os Seus, fora das muralhas do Templo, das letras da Lei e das mãos puras dos que impõem tudo isso aos seus irmãos.

E a voz do Céu também não se calou mais! Jesus continuou a escutá-la toda a sua vida, continuou a fazer a experiência do amor encantado de Deus por si, sobretudo pela mediação dos pobres e simples do seu povo, os seus amigos. Era através deles que o Pai continuava a dizer-lhe ao Coração: “Tu és o meu filho amado… o meu encanto!” Era através deles, pela maneira como o acolhiam, como lhe davam o primeiro lugar à mesa das suas casas e nas suas vidas. A maneira como acolhiam a sua Notícia e confirmavam a Jesus que ela era Boa, a maneira como se deixavam libertar diante dos seus olhos e curar à sua passagem, este era o modo como faziam o Coração de Jesus exultar de gratidão pela permanente voz de Deus “Tu és o meu filho tão amado… tão amado… tão amado… tão amado… és o meu encanto! Encanto-me contigo… tão amado…”

O Céu abriu-se para não mais se fechar nem calar, e o Espírito não seguiu adiante deixando Jesus para trás ou algum dos seus. No convívio com os seus, Jesus experimentava tudo isto, e estando com eles às vezes nem conseguia segurar o Coração: “Nesse momento, Jesus exultou de alegria no seu íntimo movido pelo Espírito e disse: Eu Te bendigo, oh Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos grandes e sabedores e as revelaste aos simples! Sim, oh Pai, porque essa foi a tua vontade!” (Lc 10, 21)

Mas a totalidade desta experiência do Amor paternal de Deus como um amor de predilecção só a tocamos quando procuramos entrar no mistério do silêncio de Jesus. Não há sabedoria sem silêncio, nem maturidade, nem encanto que dure, nem fidelidade que se aguente.

Os evangelistas preocupam-se em testemunhar-nos este silêncio de Jesus, que umas vezes roubava horas ao sono para se afastar de casa enquanto os próprios discípulos dormiam, outras vezes mandava-os à frente dele para ficar a sós, e havia noites que ia para uma colina qualquer por ali perto e passava a noite em oração, a dizer-se e a receber-se do Pai.

E daqui não podemos passar muito mais… Espreitando estes momentos, chegando-nos perto, talvez o consigamos ouvir a dizer muitas vezes “Abba…” como depois ensinou aos seus. Falar-Lhe-ia do Reino, de si, dos seus amigos, dos tristes, dos pobres e dos doentes, dos seus discípulos, das mordeduras de alguns fariseus e doutores da Lei, das suas dúvidas e decisões…






SHALOM

3. Experiência de Confronto



Jesus estava em Cafarnaum, em casa do Simão Pedro e “toda a população se aglomerava junto à porta.” (Mc 1, 33) Então, no dia a seguir, “muito de madrugada, Jesus levantou-se e saiu. Foi para um lugar despovoado e aí esteve orando. Entretanto, Simão e os seus companheiros saíram à sua procura e quando o encontraram, disseram-lhe: Todos te procuram! No entanto, Jesus respondeu-lhes: Vamos a outras aldeias, às vizinhas, pois eu vim para isso.” (Mc 1, 35-38)

Este silêncio de Jesus não era apenas o “lugar” da intimidade com o amor predilecto do Pai, mas também um regresso ao deserto de todas as escolhas, discernimentos e rupturas, a vitória sobre o divisor e suas tentações. Qual era a tentação a vencer aqui? O conforto do sucesso, a tentação de tornar-se servo da lógica do êxito, de deixar-se domesticar pelos louvores e infidelizar pelas palmas. A tentação de parar… o perigo de morrer cedo demais, por dentro, abafado pela autocomplacência. Usando linguagem evangélica: a tentação da multidão. Jesus tem que continuar a lutar dentro de si com a força divisora que se experimenta quando se vive no meio de dois mundos.

Jesus irá libertar-se desta lógica da multidão, e do sucesso asfixiante que ela quer impor toda a sua vida. E teve que treinar os discípulos nisto, porque no seu Coração às vezes endurecido e na simplicidade dos seus pensamentos, adoravam a ilusão de grandeza que as multidões costumam dar.

Nos relatos evangélicos, é muito raro Jesus “impor” ou “obrigar” alguma coisa a alguém. Só fala assim, nesse tom impositivo, aos demónios e espíritos impuros. E… pois… aos seus discípulos. Uma vez ao Pedro: “Põe-te atrás de mim, seu divisor, que queres fazer-me cair, que só pensas segundo os homens e não segundo Deus!” (Mt 16, 23), e outra vez a todos: “Jesus obrigou os seus discípulos a entrarem no barco e atravessarem o lago até à outra margem, à sua frente, enquanto ele mandava embora a multidão. E depois de a despedir, subiu ao monte para orar.” (Mc 6, 45-46)

Jesus teve que os obrigar, encantados que estavam com o ambiente da multidão que tinha acabado de ser saciada com a abundância de pão que Jesus tinha feito acontecer. E Jesus, além de os treinar nesta libertação, novamente vai orar estas coisas com o Pai e vencer dentro de si as tentações de sempre…

E é assim que Jesus se faz, na fidelidade ao Espírito que o consagrava como Messias e o gerava como filho de Deus, continuamente. Porque a Verdade não se experimenta apenas em forma de júbilo, exultação e confirmação. Sentimo-la a penetrar a nossa vida também muitas vezes em forma de sofrimento, ruptura, crise.

O evangelista Marcos tem uma maneira muito interessante de narrar simbolicamente os encontros de Jesus com possuídos por espírito impuros e demónios. Ao longo de toda a vida de Jesus, são estes espíritos impuros e demónios, e só eles, que dizem a Jesus o mais profundo de si mesmo que o próprio Pai lhe segredava: “Tu és o Filho de Deus!” (Mc 3, 11) É no confronto com este mistério do mal que tantas vezes possui e domina o ser humano, que Jesus confirma permanentemente a própria voz do Pai, escutada na doçura e na intimidade. Só no fim, já depois de Jesus ter expirado na cruz, é que escutamos esta proclamação de fé na boca de um centurião romano: “Este homem era realmente Filho de Deus!” (Mc 15, 39)

Até aí, a verdade mais profunda de Jesus é sempre dita pela voz do Pai e confirmada pelo seu confronto vitorioso contra o mal. Na maneira como libertava as pessoas do que as oprimia, do que as possuía, manifestava-se para o próprio Jesus a acção de Deus na sua vida, o poder do Pai e a força do Espírito no seu íntimo. No confronto vitorioso com o mal Jesus confirmava dentro de si a verdade que o Pai lhe dizia e a força do Espírito que o consagrava. A libertação das pessoas era por excelência o sinal da chegada de Deus, da proximidade do Reino e da acção poderosa do Espírito de Deus que circulava entre os simples e os pequenos do seu povo. Os endemoninhados ficavam livres, os possuídos por espírito impuros ficavam curados e na posse de si mesmos! Eis a força do Deus que passa…

Era no confronto com esta realidade que o próprio Jesus crescia sempre em fidelidade e dom de si mesmo ao Pai, porque via confirmada na sua acção libertadora a verdade do amor que o Pai lhe dedicava e a Missão que lhe confiava. Usemos a linguagem cultural dos evangelistas… Cada encontro com gente dominada por demónios e espírito impuros gritava a Jesus a verdade máxima de si mesmo e confirmava o que o Pai desde o princípio lhe dissera no Jordão: “Tu és o Filho de Deus!”

É no confronto com esta realidade da opressão, do sofrimento, da angústia, da falta de liberdade e dignidade que uma pessoa se faz também! Porque é aqui que se confirmam ou morrem muitas daquelas verdades que temos por adquiridas acerca de nós mesmos, de Deus, dos outros…

Jesus aparece diante dos nossos olhos como alguém em cujo peito não fazia ninho o medo, e por isso a sua presença era uma experiência profunda de libertação para aqueles que em verdade a procuravam. Essa é que era a fonte da sua autoridade, aquela que todos lhe reconheciam, os que o seguiam como os que o perseguiam…

E essa era também a nascente da sua fidelidade. Porque os medos que nos habitam são o maior inimigo à acção do Espírito de Deus em nós e através de nós.


SHALOM

4. Jesus faz discípulos



Imediatamente, Jesus compromete outros naquilo a que se sente chamado. Desde o princípio! E não é algo que “acontece”, não é gente que Jesus aceita junto de si porque vem ter com ele, e muito menos uma necessidade que ele tivesse sentido depois de se sentir sozinho na missão… É a única maneira de realizar aquilo que dentro de si o Espírito de Deus propõe e o Pai sussurra. O anúncio do Reino de Deus que chega, do Deus que Se faz próximo, implica a comunhão, a solidariedade, a libertação dos egoísmos, a aprendizagem do que significa ser irmão. Descobrir em Deus o rosto de um Pai, implicava simultaneamente aprender a descobrir nos outros o rosto de um Irmão. Esta é a lógica do Reino… E isto está no centro da Boa Notícia que Jesus queria que toda a gente acolhesse.

Por isso, ele mesmo gerava em torno deste anúncio um encontro permanente entre pessoas, os seus discípulos. E, cá para mim, não foi por acaso que os primeiros a ser chamados eram irmãos… “Viu Simão Pedro, e seu irmão, André… e logo a seguir viu Tiago, e seu irmão João…”

Jesus era um homem inteligente, e que falava muito para além das palavras que dizia. Sinto que Jesus está a mostrar logo que o Reino de Deus é "coisa de irmãos", é uma família. Não era um novo movimento messiânico, mais um, a que aderiam os mais capazes disto ou daquilo, ou os mais voluntariosos pela causa da libertação de Israel, mas era a construção de uma nova familiaridade entre as pessoas, uma Notícia que é Boa para aqueles que querem aprender a viver como irmãos, sob o olhar amoroso de um Deus que nos cuida e respeita como um Pai.

“Caminhando junto ao lago da Galileia, Jesus VIU Simão e seu irmão André… Um pouco adiante, Jesus VIU Tiago, de Zebedeu, e seu irmão João…” (Mc 1, 16-20) É assim que tudo começa. É Jesus quem toma a iniciativa, quem passa, vê, sai ao encontro, convida… Reconheço em Jesus uma atenção permanente que cria as condições e as situações, não as espera simplesmente. Em relação a tudo… Certamente também tinha a ver com isto aquilo que Jesus tantas vezes ensinou aos seus: “Estai vigilantes… Estai preparados… Estai atentos…”

Encontra-os no concreto do que fazem, no quotidiano das suas ocupações e é aí, no centro das suas vidas, que ele se faz proposta de qualquer coisa nova. É aí, no centro vital onde estão as suas seguranças, as suas certezas, o seu passado e o seu futuro… A estes, que cuidavam dos seus barcos, ou ao Levi, que Jesus também, “passando, VIU sentado na sua mesa de cobrança de impostos e disse-lhe: Segue-me!”… (Mc 2, 13-14)

Jesus nunca procurou rodear-se de letrados na Lei, nem fariseus, nem gente piedosa de Jerusalém, que gravitavam à volta do Templo e do seu deus sempre insatisfeito. Queria gente calejada da vida, que conhecesse os meandros das experiências humanas mais profundas e reais, ainda que não as soubessem dizer com palavras bonitas, gente que soubesse comungar com as dores das pessoas que encontrassem no caminho, ainda que não fossem capazes de ler uma leitura na sinagoga aos sábados nem fazer um comentário à volta das minúcias desta ou daquela profecia…

Jesus entrava na vida destes homens e abria-lhes uma esperança, tocava dentro deles num ponto qualquer misterioso que os fazia sentirem-se desejosos de experimentar a aventura do Reino tal como ele a propunha, como um caminho de libertação das pessoas, de compromisso vital com elas no mais concreto, aí onde a vida acontece, onde a vida dói e morre às vezes, mas também se cura e re-suscita: “Pescadores de Homens”! Tudo parecia possível…. Com ele, sim! Inundava-os de uma esperança capaz de abandonar os barcos, as redes ou a mesa de cambista…

Quando os chama a serem seus companheiros e discípulos, não os chama em função de si mesmo, nem em função do que eles têm que “fazer”. Não lhes propõe que se voluntariem em função de uma causa “fora” deles… É mais profundo! Jesus compromete-se com eles: “Eu farei de vós…” “Eu farei de vós pescadores de homens”, diz-lhes Jesus. Não é um novo ofício que lhes está a dar, uma nova ocupação em regime de voluntariado solidário… É uma nova vida que lhes promete e com a qual se compromete ele mesmo: “Eu farei de vós...” Promete-lhes que ele mesmo fará dos seus outra coisa, fará neles coisas novas, lhes dará um futuro que sozinhos não constroem.

Ao chamá-los, Jesus compromete-se com eles e dá-se a eles de uma maneira incondicional. Jesus não compromete simplesmente pessoas consigo ou com a causa do Reino… Antes disso, e mais importante, Jesus compromete-se com elas! Ao convidá-los a tornarem-se seus discípulos, é ele que assume o compromisso com eles, e não o contrário. A eles pede-lhes que o sigam. Que o descubram e se descubram novos no convívio com ele…

Jesus não os “roubou” do que viviam… Mas tudo fica diferente quando ele entra na vida dos seus. “Imediatamente, deixando as redes, seguiram Jesus.” Deixaram as redes, não o barco nem o seu mundo… Jesus não os rouba do seu mundo; antes, mete-se nele! Ao longo de todo o evangelho encontramos Jesus a percorrer as aldeias piscatórias onde se moviam alguns dos seus discípulos certamente há muito mais tempo que ele, que era de Nazaré, bem longe dali. A sua missão desenrola-se toda à volta do grande lago da Galileia, com as gentes destas povoações. Jesus não lhes pediu que vendessem o barco ou o abandonassem… Pelo contrário, vemo-lo a usá-lo para se dirigir às multidões que se aglomeravam às vezes na margem. Subia ao barco, entrava um pouco no lago, e falava daí.

O Reino acontece do lado de dentro da vida dos discípulos de Jesus, não fora, dentro das situações concretas que viviam, das ocupações que tinham, das pessoas que conheciam, das povoações que percorriam… É a partir daí que o Reino começa a emergir e a difundir-se, pela força de Jesus, cheio do Espírito.

A Levi, o cobrador de impostos, tinha dito: “Segue-me!” E o evangelista continua: “Levantou-se e seguiu-o! Quando Jesus estava em casa dele, como convidado, estavam também muitos cobradores de impostos e pecadores à mesa com ele. E os seus discípulos estavam lá. Pois já eram muitos os seus seguidores.” (Mc 2, 14-15)

Afinal, quem é que seguiu quem?! Foi o Levi que seguiu Jesus… Mas Jesus seguiu-o até sua casa!!! Até ao centro do seu mundo, dos seus amigos considerados impuros e pecadores, ao núcleo vital da sua vida! E, com ele, levou todos os que o seguiam… Não só foi com Levi ao centro do seu mundo, à sua casa, mas arrastou consigo os que o seguiam. Seguir Jesus pode implicar estas coisas… pode implicar ver-se arrastado por ele até à casa do Levi, ou seja, a ultrapassar as fronteiras da Lei, de uma certa moral, de preconceitos, de castas…

O mundo interior dos discípulos de Jesus entrava muitas vezes em reboliço com as opções do Mestre, sobretudo com estas caminhadas que fazia e os arrastavam para onde nunca iriam pelo seu próprio pé…

Ele tinha-lhes prometido: “Farei de vós Pescadores de Homens…
Farei de vós…
Farei de vós…”
E não lhes tinha mentido. Era assim que ele fazia.



SHALOM

5. Jesus defende os seus discípulos



Com que afecto amaria Jesus os seus discípulos? O Reino não precisa de funcionários, e não era assim que Jesus os tinha consigo. Ao chamá-los, ele mesmo se tinha comprometido com eles! E, ao chamá-los, ele mesmo tinha ficado "comprometido" de outra maneira… Isto é, aos olhos dos “fariseus e companhia”, aqueles discípulos iriam dar-lhes uma quantidade enorme de motivos para provocarem Jesus…

Por isso, na memória evangélica que nos deixaram de Jesus, estes discípulos testemunham o cuidado que sentiram da parte do Mestre não só em prepará-los mas também em defendê-los! Logo ao princípio, alguns fariseus começaram a fazer perguntas manhosas sobre os costumes de Jesus e maneira como relativizava algumas tradições judaicas, como o jejum, as más companhias ou o descanso do sábado. E iam fazer estas perguntas aos discípulos.

Por exemplo, quando os “apanharam” na casa do Levi, com os seus amigos… “Os Doutores da Lei do partido farisaico, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, foram dizer aos discípulos: Porque é que ele come com cobradores de impostos e pecadores?”

Ora aí está uma pergunta que deixaria os discípulos atarantados… Eles mesmos não sabiam! Tinham-no seguido, e viram-se ali no meio, próximos de uma mesa da qual certamente nunca seriam nem quereriam ser convidados… Os “Doutores da Lei do partido farisaico” apertaram bem os iletrados e confundidos discípulos de Jesus. Mas… “Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar os justos mas os pecadores!” (Mc 2, 16-17)

E pronto! Assunto arrumado… letrados enxotados, discípulos defendidos. Jesus sabia que os seus ainda não estavam preparados para lidar com estas acusações e perguntas. Jesus sabia que eles mesmos ainda tinham que segui-lo por um caminho de descoberta da novidade do Reino, passando dentro de si por experiências de escândalo também, crise e renascimento. Jesus defende sempre os seus, sempre! Nunca vemos os discípulos a terem que responder ou confrontar-se com as “raposas” que aparecem a morder e a pilhar lá pelo meio… É o Mestre que assume essas respostas e enfrentamentos, e livra os discípulos disso. Chegará a altura, sim, Jesus sabe… mas não agora.

O evangelista João deixa-nos um dos mais bonitos testemunhos deste cuidado que experimentavam do Mestre quando, na grande oração final da sua vida, Jesus diz ao Pai:
“Oh Pai, manifestei o teu Nome àqueles que eram Teus e Tu confiaste a mim.
O que Tu me comunicaste, eu lhes comuniquei a eles.
Peço-Te por eles, por aqueles que me confiaste, porque são teus.
Eu já não estou no mundo, mas eles estão no mundo:
porque eu vou para Ti, Pai santo, mas a eles guarda-os em Teu Nome…
Enquanto eu estava com eles, eu guardava-os em Teu Nome.
Eu guardei-os, e não perdi nenhum deles,
excepto o destinado à perdição, como diz a Escritura.
Não Te peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.
Consagra-os com a Verdade, a Tua Palavra que é a Verdade!
É por eles que eu me consagro, para que fiquem consagrados na Verdade.
E não Te peço somente por eles,
mas por aqueles que hão-de acreditar em mim por causa das suas palavras…
Pai, os que me confiaste, quero que estejam comigo onde eu estou,
quero que contemplem a glória que Tu me deste…
Que o amor que tiveste por mim esteja neles, e eu esteja neles.” (Jo 17)

É um privilégio inexplicável podermos entrar no mistério deste diálogo filial e experimentarmos na própria carne que somos nós mesmos o assunto da conversa entre Jesus e o Abba…

Jesus era um homem muito sóbrio nas palavras que dirigia a gente como os fariseus ou os sacerdotes… Sabia bem que esses não o procuravam para ser doutrinados, mas para o porem à prova ou ouvirem a última “heresia” que lhe saísse da boca. Por isso, Jesus não gastava muito tempo com explicações a essa gente… Mesmo no momento mais duro da sua vida, continuou convencido de que era assim mesmo. As perguntas que lhe faziam no sinédrio para terem motivo de o acusar de morte, não lhe mereciam grandes explicações nem respostas de defesa. Silenciava-se diante de uns e respondia provocatoriamente diante de outros, sempre consciente de que a pena já estava decidida.

Mas, há uma vez… há uma vez no evangelho de Marcos em que Jesus parece que perde as estribeiras e dá aos fariseus e doutores da Lei uma resposta longuíssima, com exemplos e tudo, que eles certamente não estavam nada à espera de ouvir, de tal modo ele os tinha habituado a ser enigmático e breve com eles.

O que aconteceu? “Pegaram” com os seus discípulos… E o coração do Mestre, que já estava certamente cheio deles, transbordou com essa! “Os fariseus e doutores da Lei viram que alguns dos seus discípulos tomavam os alimentos com as mãos impuras”… E foram provocar Jesus com isso: “Porque é que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos e comem impuros?!”

Ponho-me no lugar de um destes discípulos… Fecho os olhos e ponho-me no lugar de um deles… e espero pelo meu Mestre! Como se vai safar desta? Como me vai safar desta? E encho-me de vaidade e alegria ao escutar a resposta de Jesus, o meu Mestre. Encho-me de vaidade, de segurança, de um gozo cada vez maior à medida que ele encadeia umas palavras nas outras… Sinto-me “babadinho” de todo do meu Mestre, sinto-me o mais importante e bem amado e protegido de todos. Porque o meu Mestre, desta vez que eles experimentaram tocar nos seus companheiros, “perdeu” a compostura, deixou as parábolas e os enigmas de lado, e bateu a doer: “Bem profetizou o profeta Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; o culto que me prestam é inútil e a doutrina que ensinam não passam de preceitos humanos! Vocês deixam para trás a vontade de Deus para se agarrarem às tradições dos homens…”

E eu ali, no canto, com as mãos impuras e com os olhos cheios do meu Mestre a tomar partido por mim e pelos meus outros companheiros impuros… o meu Mestre! E o coração parece que me foge do peito, porque não cabe de tanta vaidade do m-e-u M-e-s-t-r-e…

Mas, desta vez, ele está mesmo chateado! E continuou: “Vocês estão sempre a desprezar o que Deus quer, em nome do que mandam as vossas tradições! Ora vede o que Moisés disse: Sustenta o teu pai e a tua mãe, e disse também quem abandonar o seu pai ou a sua mãe é réu de morte. Mas vocês, não ligando a isto, dizem que se alguém declarar que aquilo com que devia socorrer o pai ou a mãe é Korban (isto significa oferenda sagrada, para o Templo) já não lhe deixais que faça nada por eles! E assim estais a invalidar o preceito de Deus em nome da vossa tradição! E, como esta, fazeis muitas outras coisas…” (Mc 7, 1-13)

É o meu Mestre… o M-E-U M-E-S-T-R-E… que não abandona a defesa dos seus, que toma partido, como ele mesmo disse uma vez: “Como a galinha que junta os seus filhotes debaixo das asas”… (Lc 13, 34)




SHALOM

6. O Mestre ensina os seus discípulos


O Mestre que os defendia das provocações dos Doutores da Lei e dos fariseus, era o mesmo que depois os enviava a percorrer as povoações, sozinhos, anunciando o Reino, avisando-os à partida: “Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos”… (Lc 10, 3)

Jesus não infantilizava os seus discípulos, a atenção que lhes dedicava preparava-os e fortalecia-os, não os demitia nem incapacitava para a ousadia do Reino que lhes viria a ser pedida. Jesus não formava discípulos para um mundo ideal, sem conflitos nem contradições! Chamava Bem Aventurados aos puros de Coração, mas sabia bem que a ingenuidade é inimiga do Reino. Proclamava Bem Aventurados os mansos, mas sabia bem que não podia contar com os molengões para a ligeireza que exige a disponibilidade ao Espírito e o anúncio do Deus que passa. Bem Aventurados os construtores da paz, claro, mas também dizia aos seus “Pensais que eu vim trazer a paz?! Eu não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10, 34), “Quem tiver um manto venda-o e compre uma espada” (Lc 22, 36) e acrescentava que “o Reino de Deus está exposto a sofrer violência” (Mt 11, 12).

Por isso, a sua emergência é liderada por aqueles que estiverem dispostos a deixar a pele pelo caminho, a assumir opções que implicam conflito e que podem, em extremo, exigir a fortaleza máxima de um Homem de Deus que se manifesta na sua disponibilidade a deixar-se matar para não se desdizer. Essa é a violência do Reino, a violência do testemunho e do desconcerto daqueles que assumem a luta até ao fim, e o fim não é nunca o fim do outro mas de si mesmo.

Jesus ensinava os seus a estarem sempre vigilantes, a terem “cuidado com o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes” (Mc 8, 15), a viverem com toda a “candura das pombas, e toda a astúcia das serpentes” (Mt 10, 16)… Porque o Reino de Deus não é um mundo que vem de cima para baixo, esmagando e destruindo… É o agir de Deus que não esmaga, a força do Seu Projecto Salvador que irrompe na história humana, que desponta no mundo como semente… É uma realidade que irrompe, rasga, abre caminho, fura, a partir de baixo… Não de cima para baixo, esmagando, mas ao contrário, como semente, irrompendo, rasgando… Por isso, manifesta-se sempre como mais fraco, tenro, pequeno, débil… Este é o conflito da emergência do Reino. Não a luta titânica entre as forças de dois mundos, mas a resistência que um mundo faz à irrupção de outro no seu íntimo.

Jesus prepara os seus discípulos para a luta não-violenta deste Reino de Deus a acontecer
. Por isso lhes repete tantas vezes “Não tenhais medo! Não tenhais medo!”, e os introduz na sua própria experiência de Confiança no Pai. “Quando fordes levados aos que julgam e vos for pedido que testemunheis, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, porque o Espírito Santo falará por vós!” (Lc 11, 12) “Não tenhais medo dos que podem matar o corpo, mas não a Vida!” (Mt 10, 28)

Jesus não falava muito disto… Mas os discípulos eram arrastados por ele a experiências fortes demais para serem esquecidas… Uma vez, “Jesus entrou na sinagoga, num sábado, e estava lá um homem com a mão atrofiada. Estavam a vigiar Jesus, para ver se ele iria curá-lo num sábado para terem de que o acusar. Então, Jesus disse ao homem: Põe-te no centro. E, virando-se para eles, perguntou: O que é permitido fazer ao sábado? Fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou matar? Eles permaneciam calados... Então, Jesus passou o olhar sobre todos eles, cheio de indignação, e magoado com a sua resistência, disse ao homem: Estende a tua mão! Ele a estendeu e ficou curado. Os fariseus saíram imediatamente e começaram a combinar com os do partido de Herodes como haviam de acabar com ele.” (Mc 3, 1-6)

E os discípulos de Jesus, no meio de tudo isto… A verem as atitudes do Mestre, a ficarem certamente baralhados com a maior parte delas…

Jesus, então, o que fazia? O evangelista, logo a seguir diz isto: “E Jesus retirou-se com os seus discípulos, num lugar junto ao lago”… (Mc 3, 7) Estes acontecimentos, mais do que explicados, precisam de ser discernidos, partilhados, dialogados na intimidade da comunidade. Precisam de ser mastigados com a sabedoria do Mestre, para não se tornarem apenas situações isoladas de conflito ou provocação gratuita, mas se lerem dentro de toda a Boa Notícia do Reino, dentro de todas as dimensões da experiência desse Reino a acontecer mesmo diante dos seus olhos e, acima de tudo, dentro do agir de um Deus com coração de Pai.

Nesta intimidade, e nas paragens das suas tantas caminhadas, Jesus muitas vezes provocava neles a experiência das perguntas fundamentais daquele caminho de seguimento que faziam com ele. Sempre atento, às vezes dava-se conta que os seus discípulos falavam pelo caminho de coisas como qual deles seria o maior, ou qual viria a ser o mais importante no Reino Messiânico que havia de instaurar-se um dia desses… E perguntava-lhes, às vezes já em casa, “Qual era o assunto da conversa, pelo caminho?” E depois, então, falava-lhes de um Reino diferente, de uma maneira desconcertante, dizendo coisas tão “absurdas” como “o maior dentre vós é o que serve”, ou colocando uma criança ao colo e dizendo que é preciso tornar-se como ela para entrar no Reino… (Mc 9, 34-36)

Os evangelistas narram algumas vezes Jesus a fazer aos seus uma espécie de antecipação do acontecimento pascal: “Vou ser escarnecido e maltratado, vão-me matar, mas depois ressuscitarei passados três dias” (Mc 8, 31-32). É uma linguagem dos evangelhos claramente pós-pascal, mas que guarda dentro uma experiência de memória muito importante. Certamente perceberam muitas vezes em Jesus esta disponibilidade para dar a vida até às últimas consequências pela causa do Reino de Deus. E, à medida que os meses iam passando, ia-se tornando consciente para Jesus que o cerco farisaico e sacerdotal apertava cada vez mais, e não havia outra saída senão a do testemunho e da fidelidade incondicionais…

Jesus mostrava esta disponibilidade aos seus, e provocava-os com ela, nos seus “anúncios da paixão”, para os levar à compreensão do Reino de um Deus destituído de poder, onde é o dom da própria Vida que gera libertação, salvação e futuro para os outros, não a luta pelas armas ou qualquer lógica de violência.

Mas esse era o salto maior que Jesus pedia aos seus discípulos… Pedro é o rosto visível desta incompreensão, ao “chamar Jesus à parte e repreendê-lo” por ter dito estas coisas! (Mc 8, 32-33) Precisaram mesmo de passar pela frustração da morte do Mestre, pela desilusão daquele fim, para que a experiência pascal depois lhes explicasse tudo de maneira extraordinariamente mais eficaz e fecunda.

Jesus preparou-os muito bem para darem o salto por cima da experiência da sua morte… Preparou-os e deixou-os entregues aos cuidados do Espírito Santo que, ao terceiro dia, os começou a fazer renascer também a eles…




SHALOM

7. A Pedagogia do Mestre Jesus



Jesus começou a enviar os seus discípulos a percorrer a região por onde costumavam andar. Enviava-os assentes unicamente na Confiança e na Verdade da Notícia que tinham para anunciar, uma Notícia que era Boa não porque soava bem aos ouvidos, mas porque tinha força em si mesma, uma força libertadora: “Chamou os Doze e foi-os enviando, dois a dois, dando-lhes o poder sobre os espíritos impuros. Recomendava-lhes que levassem somente um bastão; nem pão, nem sacola, nem dinheiro, que calçassem umas sandálias mas não levassem duas túnicas…” (Mc 6, 8)

O carinho que está presente nesta memória… “Chamava-os… ia-os enviando, dois a dois… dava-lhes… recomendava-lhes…” E depois? Depois, silêncio… Eles foram e Jesus ficou à espera… Simplesmente à espera… O evangelista Marcos aproveita para contar o episódio macabro da morte de João Baptista, enquanto o envio dos discípulos se vai realizando…

Até que, “os enviados voltaram e reuniram-se com Jesus e contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado”. Jesus estava à espera deles para isto, para os escutar, e tinha “uma” preparada: “Agora vamos, nós, sozinhos, para um lugar despovoado, porque precisais de descansar um pouco” (Mc 6, 30-31) Eis o Mestre… a cuidar dos seus, a levá-los, mais uma vez, à experiência do discernimento de todas as coisas, à importância de não viver as situações isoladamente mas dentro de todo o mistério do Reino a acontecer de tantas maneiras diferentes e dentro da missão que o Pai confia e o Espírito anima no íntimo daquela comunidade de discípulos de Jesus…

Jesus fá-los sentir muitas vezes a originalidade do seu lugar enquanto discípulos seus, tão próximos. A originalidade do seu Privilégio e da sua Responsabilidade! Quando ficava a sós com eles, explicava-lhes o seu anúncio de uma maneira diferente, e até o sentido de algumas parábolas. Este era o privilégio, mas também a responsabilidade de se abrirem mais à Boa Notícia do Reino, a responsabilidade de se disponibilizarem mais rapidamente à novidade de Deus à qual ele os convidava…

Depois de contar à multidão a parábola do Semeador, “quando ficou sozinho com os discípulos e os Doze, perguntaram-lhe sobre as parábolas. E Jesus disse-lhes: A vós é comunicado o segredo do Reino de Deus, enquanto para os de fora tudo são parábolas…” Mas, depois de explicar, diz também: “Se não entendeis esta parábola, como entendereis as restantes?!” (Mc 4, 10-12) “Com parábolas Jesus expunha a todos a Notícia, de acordo com a capacidade deles. Sem parábolas não lhes expunha nada. Quando ficava a sós, explicava-as aos seus discípulos…” (Mc 4, 33-34)

Por causa deste privilégio e desta responsabilidade, também nos aparece mais que uma vez Jesus “chateado” pela lentidão dos discípulos em perceber o que ele dizia… Depois de os apanhar confusos e discutindo entre si, explicava-lhes o que estava a acontecer, interpretava com eles os acontecimentos que tinham vivido, e no fim perguntava impaciente: “Mas ainda não compreendeis?!” (Mc 8, 15-21)

Jesus “puxava” pelos seus… Confiava neles e amava-os a ponto de não desistir de contar com cada um… Nos dois relatos conhecidos como a “multiplicação dos pães”, ou “a abundância de quem partilha”, damo-nos conta de um traço essencial na pedagogia de Jesus com os seus discípulos, que vão ter com ele dizendo: “Mestre, manda todos embora para que vão às aldeias por aí tratar do que comer… Mas Jesus respondeu-lhes: Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mc 6, 35-37) Em outra ocasião, foi ele mesmo que “chamou os discípulos para lhes dizer: Tenho compaixão desta gente, que estão há três dias comigo e não têm o que comer; não os posso mandar em jejum para casa que desfalecem no caminho… E os discípulos responderam-lhe: Mas aqui, quem é que terá pão para os alimentar?! E Jesus, perguntou-lhes: Quantos pães tendes vós?!” (Mc 8, 2-5)

Jesus ensina os seus discípulos a tornarem-se Resposta… Não faz deles simplesmente “pregadores” do Reino àquela gente, mas Respostas de Deus às necessidade e fomes do seu povo! É tão diferente… E essa resposta consiste em gerar, a partir do que se tem e do que se pode, uma dinâmica de conversão à partilha e à generosidade que geram abundância para todos.

Jesus de Nazaré… Ficou-nos o testemunho de que “todos se maravilhavam e o procuravam ao ouvir o que ele FAZIA” (Mc 3, 8), não simplesmente o que ele dizia… E foi para isso que preparou também os seus, não para serem pregadores ambulantes de “verdades eternas”mas Respostas vivas do Deus que passa e se compadece do Seu povo…




SHALOM

8. O Caminho da Intimidade


Jesus nunca se deixou cair na tentação de ser a “star” de uma multidão. Sabia bem o quanto elas são inconstantes e os seus aplausos, ainda que sinceros, podem ser ambíguos. Era alguém com uma necessidade enorme de silêncio, de sossego, de intimidade com o Abba, com os seus discípulos e com toda a criação que lhe enchia os sentidos naqueles amanheceres que fazia fora da cama, na paz de uma colina qualquer perto de casa.

Nos testemunhos evangélicos, Jesus parece quase sempre incomodado pela multidão, como que “apertado”. Por isso, quando se juntava nas margens do lago, Jesus pedia logo que lhe preparassem um barco, entrava nele, e era da água que anunciava a Boa Notícia. Depois disso, normalmente, falava aos discípulos para lhes dizer qualquer coisa do género: “Vamos para a outra margem”…

Sem dúvida que o Coração de Jesus se movia de compaixão com aquela gente, que às vezes até lhe pareciam “como ovelhas sem pastor”, mas isso não significa que se deixasse engolir. Sem problema nenhum, os evangelistas nos narram as “fugas” e “desaparecimentos” de Jesus quando o movimento das multidões apertava mais: “Jesus já nem podia apresentar-se em público em nenhuma povoação. Por isso ficava fora, no despovoado, e ainda assim de todos os lugares iam procurá-lo”. (Mc 1, 45)

Nesta ocasião, Jesus esteve uns dias assim, “desaparecido”, antes de voltar a Cafarnaum: “Só depois de alguns dias voltou a Cafarnaum e logo correu a notícia de que estava em casa. E reuniram-se tantos que já nem havia espaço junto à porta…” (Mc 2, 1-2)

À medida que a sua missão se desenrola, Jesus vai-se afastando cada vez mais das multidões e aumentam os espaços de intimidade com os seus discípulos. Esta mudança é narrada de maneira muito bonita, em forma de “Caminho para Jerusalém”. Numa primeira parte da sua missão anunciou o Reino em todos os povoados da Galileia, girando por ali, mas depois pega só nos seus discípulos e dirige-se com eles até à capital, Jerusalém, onde irá fazer coisas novas e levar até ao máximo as consequências da Notícia que anuncia e do Reino que propõe… Este Caminho para Jerusalém é sobretudo um caminho de intimidade de Jesus com os seus discípulos e um Caminho de Jesus em direcção ao Pai.

Jesus já os tinha instruído nesta intimidade, pela maneira como criava com eles momentos de paragem e discernimento depois de alguns acontecimentos mais “fortes” que viviam juntos. Mas este Caminho é mesmo outra etapa…

Em tantas caminhadas, e sobretudo nas suas paragens, Jesus criou condições privilegiadas para os seus discípulos entraram em intimidade consigo. De facto, caminhando sem o peso e o ruído de uma multidão atrás, os gestos, palavras e parábolas de Jesus iam ficando mais claros aos olhos de todos. Mas o Caminho que faziam juntos permitia mais… Não só entravam em intimidade com Jesus, mas na intimidade de Jesus! O próprio Mestre os convidava a entrarem na sua intimidade, ou seja, na sua maneira de se relacionar com o Pai, de conhecer todas as pessoas e de interagir com a realidade nos seus acontecimentos. Durante esta Caminho, e suas pausas, quantas vezes terão podido rezar com ele… Conversar despreocupadamente sobre o que se passava com o povo simples de Israel, naquela condição de colonização romana e legalismo religioso… Relembrar pessoas e reler acontecimentos dos meses anteriores…

Neste Caminho de Intimidade aconteciam as conversas mais importantes de Jesus com os seus… Era só na intimidade do Mestre com os seus discípulos que aconteciam as conversas em que Jesus lhes testemunhava a disponibilidade para dar a vida até ao fim pela causa do Reino, testemunho que os evangelistas nos transmitem já em forma de anúncio pascal. Era também sempre na intimidade que os alertava para não se deixarem cair nas manhas do poder e do domínio que atacam o ser humano por dentro, e os instruía a fazerem-se servos uns dos outros. Esse desejo de poder foi certamente uma das mais presentes dificuldades que Jesus teve que aceitar e enfrentar nos seus discípulos, que discutiam sobre si quem seria o maior e até chegavam ao ponto de lhe pedir os primeiros lugares no reino messiânico que eles mesmo tinham na cabeça… “Jesus chamou-os a si e disse-lhes: Sabeis como entre os pagãos os que são tidos como chefes submetem os seus súbditos, e os poderosos impõem o seu poder. Mas não será assim entre vós. Pelo contrário: quem quiser entre vós ser grande, que se faça servidor. Quem quiser ser o primeiro, comporte-se como escravo!” (Mc 10, 42-44)

Só na intimidade se pode tocar no essencial… “Enquanto iam no Caminho, Jesus perguntou aos seus discípulos: Quem dizem os homens que eu sou?! (…) E, depois, perguntou-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou?!” (Mc 8, 27-29) Há claramente em Jesus esta Pedagogia da Intimidade pela qual conduz os seus às experiências mais profundas das suas vidas e ao horizonte mais largo do que significa segui-lo como Mestre e acreditá-lo como Messias.



SHALOM

9. Pedro, Tiago e João


Quando já se encontravam em Jerusalém, ainda que durante o dia Jesus chegasse a fazer coisas como aquela entrada messiânica aclamada por uma multidão, a invasão de rompante do átrio do Templo em que estavam os vendedores, ou provocatoriamente se passeasse por lá logo na manhã seguinte respondendo a perguntas dos vários grupos religiosos que por lá se moviam, quando chegava o fim da jornada, não ficava no meio da confusão de Jerusalém em alturas de Festa! Retirava-se sempre com os seus discípulos para uma casa em Betânia, uma povoação a cerca de oito quilómetros.

A Boa Notícia acontecia em forma de parábolas surpreendentes, em forma de gestos desconcertantes, em forma de ensinamento novo, em forma de denúncia corajosa… mas também em forma de segredo, como quem serve água fresca no copo dos seus no sossego lá de casa. Não eram segredos para manter como códigos indecifráveis de um grupo impenetrável ou de uma seita, mas eram dimensões da Boa Notícia que os discípulos precisavam de escutar dessa maneira ainda, porque não estavam capazes de perceber o alcance total do que Jesus lhes estava a dizer…

Como podiam perceber de verdade o que Jesus lhes dizia quando falava do poder, do serviço, da autoridade, de dar a vida, sem terem passado pela experiência forte da sua própria entrega radical? Há coisas que não se percebem com os ouvidos… Por isso Jesus só lhas dizia na intimidade, ou seja, ensinava-as ao Coração dos discípulos, dirigia para aí o seu ensinamento como quem deposita uma semente num terreno fértil e espera as condições próprias e o passar do tempo para que ela desabroche…

Eles próprios não percebiam bem o que estavam a dizer quando chamavam a Jesus “O Messias”, como Pedro, porque as suas esperanças messiânicas não coincidiam com o impulso do Espírito que Jesus sentia dentro de si. Por isso, quando lhe chamam “o Messias”, ele aceita a resposta, “mas admoestou-os para que não falassem com ninguém acerca disso” (Mc 8, 30)

Vemos a mesma sabedoria do Mestre quando, descendo com Pedro, Tiago e João do Monte da Transfiguração, onde certamente fizeram uma experiência profunda de entrar na intimidade de Jesus, “ele os advertiu que não contassem a ninguém o que tinham visto, a não ser quando o Filho do Homem ressuscitasse da morte. Eles guardaram a advertência, mas perguntavam entre si o que significaria ressuscitar da morte…” (Mc 9, 10) É muito bonita a forma como os evangelistas fazem memória desta pedagogia do Mestre que, na intimidade, semeava neles sementes que sabia só depois virem a dar fruto… O que revela da parte de Jesus uma confiança extraordinária nos seus discípulos, apesar de todas as suas limitações e casmurrices, e no cuidado fiel do Espírito de Deus que actuaria neles

Pedro, Tiago e João…
Estes três formam, dentro do grupo dos Doze, como que um “núcleo de intimidade” especial para Jesus. São sempre eles os que estão presentes nas horas mais secretas. Por serem os primeiros, certamente, que se juntaram a ele. Falta o André, irmão do Pedro, que aparece neste “núcleo de intimidade” apenas uma vez: “Estava sentado no monte das oliveiras, diante do Templo, com Pedro, Tiago, João e André”… (Mc 13, 3) De resto, são sempre os três…

Eram os que o conheciam melhor e há mais tempo, desde os tempos da pregação de João Baptista e do baptismo de Jesus no Jordão, desde os tempos daquela experiência de predilecção do amor do Pai e da crise-deserto a que deu origem…

Além disso, eram certamente os que melhor sintonizavam com Jesus na sua experiência de Fé e na abertura à acção de Deus que nele acontecia. Vemo-lo, por exemplo, quando Jesus se dirigia a casa de Jairo, que chamara Jesus porque a sua filha estava doente. Pelo caminho vieram enviados da casa de Jairo a dizer que a menina estava morta, não valia a pena importunar o Mestre. Mas Jesus disse a Jairo para não ter medo e não permitiu que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e o seu irmão João. Nem sequer os outros discípulos… “Em Nazaré não tinha feito grandes sinais, por causa da falta de Fé daquela gente”… (Mc 6, 5) Não havia de acontecer o mesmo ali! Ao chegar a casa, disse que a menina não estava morta mas a dormir. E os que lá estavam riram-se. Então, Jesus expulsou toda a gente, e ficou apenas com o pai, a mãe e os seus companheiros. Foi só com eles que entrou no quarto em que a menina estava… (Mc 5, 35-41)

A missão de fermento que os Doze teriam no seio do seu povo, correspondia certamente à missão de fermento que estes três teriam no seio do grupo dos discípulos, não só estes Doze, chamados Apóstolos (Enviados), mas também o grupo mais alargado que o seguia e até incluía “mulheres que o serviam com os seus bens” (Lc 8, 1-3).

Este “núcleo de intimidade” de Jesus, no entanto, não era formado pelos mais perfeitos e impecáveis do grupo… Eram os primeiros que o tinham acompanhado, era com os que tinha uma proximidade maior e mais profunda sintonia, mas também “lhes dava para cada uma”… Pedro, é o que a gente sabe… Um homem com fogo dentro, com tanto de entusiasmado quanto de precipitado… A proximidade era tanta que chegava ao ponto de chamar à parte e repreender Jesus quando sentia que ele exagerava “no papel” de não-violento… Foi a ele também, o mais íntimo, que Jesus dirigiu as palavras mais duras de que os evangelistas fazem memória: “Afasta-te de mim, Satanás!”, que significa “Divisor”, em hebraico. (Mc 8, 33)

Tiago e João, os dois filhos de Zebedeu, foram os famosos que se aproximaram de Jesus, a Caminho de Jerusalém, dizendo “Mestre, queremos que nos faças um favor”… E o favor era terem os primeiros lugares do poder no Reino Messiânico que acreditavam estar quase a inaugurar-se com Jesus… “Não sabeis o que pedis!”, respondeu-lhes Jesus… (Mc 10, 35-38) Diz o evangelista que, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos ao darem-se conta do pedido… certamente porque esperavam todos o mesmo, e Jesus teve que, novamente, parar com eles a caminho, e instruí-los sobre a ilusão do poder e a nova ordem do Reino, em que a liderança se exerce no serviço… (Mc 10, 41-45)

Outra vez, passando pela Samaria e não tendo sido recebidos, Tiago e João viraram-se para Jesus com esta brilhante ideia: “Oh Senhor, vamos voltar-nos para o céu e pedir que desça fogo e os arrase!” Jesus repreendeu os dois irmãos e dirigiu-se com eles para outro lugar… (Lc 9, 51-54). Que paciência, Jesus… Que admirável paciência tem este Mestre…

Este “núcleo de intimidade” de Jesus, não por acaso, é constituído pelos três únicos discípulos a quem Jesus deu um nome novo ao chamá-los para a missão de Apóstolos. Simão, a quem deu o nome de Kefa (Pedra/Pedro) e João e Tiago a quem deu o nome de Boanerges (Trovejantes). Foi só a estes três mais íntimos, os primeiros, que Jesus deu um nome novo. E bem sabemos o que isso significa naquela cultura… Não é uma “alcunha”, mas o princípio de qualquer coisa. Um novo nascimento!



SHALOM

10. A Pedagogia da Intimidade




A pedagogia da Intimidade não está presente unicamente na relação de Jesus com os seus discípulos, mas também na maneira como as pessoas se sentiam curadas por ele. Ou, melhor… muito melhor: curadas com ele! Não curadas “por” ele como um curandeiro, mas curadas “com” ele como um encontro e curadas “nele” como um acontecimento.

Os evangelistas usam muito esta linguagem das curas para dar testemunho da presença libertadora de Jesus junto daqueles que se abriam a ele e ao anúncio do Reino. E nesta “memória de fé”, nunca narram Jesus a curar “por decreto” ou por “ofício”. Os relatos de curas são sempre relatos de encontros em que Jesus se põe em contacto com alguém. SEMPRE! Umas vezes ele toma a iniciativa, como fez com um homem com a mão atrofiada que estava na sinagoga de Cafarnaum e ao qual mandou colocar-se “no centro”, no centro da sinagoga que afinal deixava de ser a “Lei de Deus” e passava a ser aquele homem e, nele, todos os que eram “enxotados” do “centro” de Deus em nome de uma qualquer “Lei” em Seu Nome… (Mc 3, 1-5)

Outras vezes, levam-lhe as pessoas e pedem-lhe por elas.

E há ainda aqueles que procuram ficar anónimos… Estão na atitude de “ver o que acontece”. Mas Jesus provoca o encontro, o face-a-face… Uma mulher que sofria com hemorragias há doze anos, por exemplo, e que no meio de uma multidão “que apertava Jesus” se aventurou a furar para lhe tocar “ao menos na ponta da túnica”. Diz o evangelista que, “logo que lhe tocou sentiu no seu corpo que estava curada”. E parece que tudo poderia ficar assim, anónimo… mas não. Jesus parou e perguntou “Quem me tocou?! Os seus discípulos, admirados com a pergunta, disseram-lhe: Mestre, a multidão aperta-te por todos os lados e perguntas ‘Quem me tocou?!’ Mas Jesus continuou… Quem me tocou? Eu senti sair de mim uma força…” Então a mulher “aproximou-se, prostrou-se diante dele e confessou-lhe toda a verdade. E ele disse-lhe: Filhinha, a tua Fé te curou! Vai em paz, e fica curada!” (Mc 5, 25-34)

Da mesma maneira, a cura de Zaqueu, por exemplo, que também “procurava ver Jesus”, apenas. “Pôs-se a jeito”, subindo à árvore, e Jesus quebrou a distância do desejo tornando-o convite: “Hoje quero ficar em tua casa”. Depois, na casa de Zaqueu, ou seja, na intimidade com Jesus, bem sabemos a cura que se operou naquele homem… (Lc 19, 1-10)

Mas várias vezes acontecia ainda outra coisa: levavam a Jesus alguém para ser curado, no meio da multidão, e a primeira coisa que Jesus fazia era: “Então, Jesus tomou-o pela mão, afastou-se com ele da multidão e, a sós com ele, fez…” (Mc 7, 33) Esta “cura da multidão” é a primeira terapia. A libertação daquilo que dispersa, rouba liberdade, autonomia, daquilo que cala em nós a capacidade de dizermos “eu”…

Esta pedagogia da Intimidade Libertadora de Jesus revela-se muito bem naqueles, como um cego em Betsaida, que andavam sempre “levados por” alguém. Foi “levado” a Jesus, e outros falavam por ele, apesar de ele não ser mudo, mas cego! Depois foi “levado” por Jesus, pela mão, até o retirar da aldeia… E ele continuava sem falar… Então Jesus toca-lhe, dialoga com ele, abre-o a ele mesmo… Curado da cegueira, ficou curado de muitas outras coisas! Da mudez e da falta de caminhos de alguém que andava sempre “levado”. Jesus disse-lhe: “Vai, e nem sequer entres na aldeia!” E ele foi sozinho, sem ser “levado”, pela primeira vez… Estava curado! (Mc 8, 22-26)

E Jesus cura tocando! Está sempre a “tocar”. Não são palavras mágicas que diz. Jesus toca nas pessoas. E nós percebemos bem todo o alcance de uma frase como estas, não percebemos? Jesus cura tocando as pessoas… Impõe as mãos, põe os dedos dentro das orelhas, coloca saliva nos olhos de um, faz um bocadinho de lama com ela e coloca-a noutro, senta crianças no colo, abraça…

Esta intimidade, esta força da sua presença que acontece naqueles que se deixam tocar! Não são as curas automáticas de um curandeiro com os seus poderes, mas a maneira como sentimos a vida curada quando somos tocados por alguém como Jesus!

É o com-tacto com ele que cura, não um poder exterior a ele mesmo ou exterior a nós. É o próprio acontecimento do encontro, do com-tacto, que dá espaço a Jesus para alcançar por dentro as pessoas e despertar capacidades, belezas, motivos e energias que tantas vezes nos habitam adormecidas…

O poder de curar que se revela em Jesus não tem a ver com a manipulação das leis da natureza mas com o com-tacto com o mais íntimo do ser humano, onde residem possibilidades infinitas de vida nova, de renovação, de esperança, de generosidade, de conversão… É nesse com-tacto com o mais íntimo humano que Jesus faz emergir, pela força do amor e do perdão, a possibilidade que cada pessoa leva dentro de si de transcender-se, de vencer-se, de ultrapassar as forças anti-humanas geradas pelo pecado, em forma de medo, angústia, rancor, ciúme…



SHALOM

11. O Poder de Curar

.

A palavra e o com-tacto com o Jesus que cura não são a experiência de um poder que se impõe, mas antes de um encontro libertador. Por isso é que estas experiências são quase sempre seladas por Jesus com proclamações destas: “A tua Fé te salvou! A tua Fé te curou! Basta que tenhas Fé… Tudo é possível a quem tem Fé!”

Esta Fé não é a adesão a uma crença nem a um sistema religioso, mas a confiança em Jesus, naquele que tinham diante dos olhos e do qual tinham ouvido dizer maravilhas. Esta Fé é a capacidade de deixar-se tocar, mostrar-se e deixar-se mexer por dentro, sem medo! Esta é a Fé que realiza maravilhas, porque abre a Jesus a possibilidade de pegar na mão, afastar da multidão e criar o ambiente daquela Intimidade Libertadora que cura tanta coisa…

Não se fala nos relatos evangélicos de um poder curandeiro de Jesus, exterior, potente… Mas do poder libertador de um homem que tocava as pessoas com o dedo de Deus, com a serenidade do Espírito que nele actuava e na “fragilidade” de quem não pode fazer mais do que propor esta Notícia do Deus que passa e ama curando as feridas do Seu povo e enxugando as lágrimas dos seus olhos.

Por isso é que, na sua própria terra, onde as pessoas não estavam abertas a este com-tacto com Jesus por ele ser apenas mais um lá do lugar, “Jesus não podia fazer nenhum milagre, excepto uns poucos doentes a quem impôs as mãos e curou. E ele estranhava-se da incredulidade daquela gente…” (Mc 6, 5-6)

A cura nos evangelhos é um processo de Fé, a experiência de um com-tacto com Jesus que nos implica inteiros, que exige a nossa disponibilidade a sermos tocados e a nossa participação. Por isso Jesus nunca exercia sobre ninguém uma “bondade” que o substituísse ou vitimizasse. Pelo contrário, fazia emergir na pessoa as capacidades adormecidas. A sua Compaixão e Bondade não formavam uma “redoma” que aconchegava a pessoa no seu lugar de vítima, mas formavam uma espécie de ponte ou ligação da pessoa com ele. A sua presença aparecia não apenas como uma “companhia no sofrimento” mas uma “porta de saída” dele! Tocando as pessoas no seu íntimo, fazia renascer nelas a esperança.

É bonito darmo-nos conta como esta Compaixão e Bondade de que o Coração do Mestre estava cheio se realizam nele de maneira tão nova. Imagina esta cena…

Vais a passar na rua, com os teus amigos… Caminhando, há algazarra à tua volta, muita gente com quem estiveste e que gosta de ti. Enquanto caminhas, há na berma do passeio um homem cego, que está sentado no chão a mendigar, com um manto todo roto de pedinte. Ao dar-se conta de quantos passavam, e sabendo que estavam contigo, começa a chamar por ti. Gritando!

Imagina-o… Diz o teu nome, com os pulmões cheios, lá sentado no chão de mendigo, e acrescenta: “Tem misericórdia de mim! Tem misericórdia de mim!”

Tu segues, porque ao princípio não ouviste. E ele, sentindo que todos se afastavam, gritava cada vez mais alto, o teu nome e o “tem misericórdia de mim”! E tu, quando finalmente ouves, já vais bem lá à frente. O que fazes?

Olhas para trás, e ao fundo da rua lá está ele, sozinho, sentado no chão desde manhã, com a mão estendida e a manta rota. E chama por ti… grita o teu nome e chama por ti.

O que fazes?

Pensa um pouco... o que fazes? Não desças já, sem antes responderes dentro de ti mesm@ o que fazes.





Isto mesmo aconteceu com Jesus, quando estava a sair de uma povoação chamada Jericó. O cego chamava-se Bartimeu (Mc 10, 46-52)

Jesus não fez o que talvez a maior parte de nós faria… Jesus NÃO VOLTOU para trás, não foi ter com ele! Inesperadamente, Jesus disse: “Ele que venha cá!” E alguns que estavam com Jesus foram dar-lhe o recado. Ele levantou-se de um pulo, deitou fora a manta rota, e caminhou até Jesus. A maior parte de nós, não só o trataria como cego, como ainda o trataria como “paralítico”. Jesus não… “Ele que venha!!! É cego, não é paralítico!” E ele foi…

Se queria Jesus, teve que levantar-se e ir, porque ele não se mexeu do lugar onde tinha parado. E foi nesse “levantar-se” para ir que deixou de ter mão e manta de mendigo! E foi nesse “levantar-se” que deixou de ser um sentado na berma do caminho…

Depois, no com-tacto com Jesus, ficou curado, “e seguiu-o pelo caminho”…

É só impressão minha, ou de dia para dia este galileu que falava do Reino de Deus sem ser sacerdote nem doutor de lei nenhuma se torna cada vez mais admirável?...



SHALOM

12. Jesus ensinava com Autoridade

.


“Todas as pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade, não como os Doutores da Lei”… (Mc 1, 22) Esta é uma das dimensões mais desconcertantes de Jesus enquanto Mestre. Ensinava com autoridade, não como os Doutores da Lei, ou seja, aqueles que eram a autoridade na interpretação da Lei e no ensinamento religioso do seu povo!

A “autoridade” dos Doutores da Lei manifestava-se no saber de todas as minúcias das leis e tradições judaicas. A autoridade de Jesus manifestava-se no seu poder de tocar pessoas de maneira libertadora. Essa era a autoridade do seu ensinamento! Era um ensinamento que libertava, que curava. “Todos se enchiam de espanto e perguntavam: O que significa isto?! É um ensinamento novo, cheio de autoridade, que dá ordens até aos espíritos impuros e eles obedecem-lhe!” (Mc 1, 27)

É fortíssimo este testemunho! Um ensinamento que rasga o peito… Um ensinamento que toca por dentro… Um ensinamento que “revoltava” os espíritos impuros, que criava alvoroço, como nos aparece nalguns testemunhos evangélicos… Um ensinamento que os expulsava e libertava as pessoas… “Um ensinamento novo, cheio de autoridade, que dá ordens até aos espíritos impuros e eles obedecem-lhe!”

O que diz isto sobre a maneira como ele ensinava? O que diz isto sobre a maneira concreta como transmitia a Boa Notícia do Reino? Em vez de muitas “explicações”, prefiro parar um pouco e fazer estas perguntas com calma e silêncio…

O que significa alguém ensinar, falar, anunciar, e nós percebermos que está a mexer dentro de nós com os nossos “espíritos impuros” e os nossos “demónios”?

O que significa alguém ensinar e nós percebermos que está a tocar-nos por dentro e a mexer-nos?

O que significa alguém transmitir-nos a Notícia da nossa cura, ao mesmo tempo que estamos a senti-la acontecer dentro de nós?










SHALOM

13. A Proximidade e Autenticidade do Mestre

.
..
.

A autoridade de Jesus é o seu poder de tocar as pessoas por dentro e libertá-las, que nos evangelhos nos aparece em forma de expulsão dos espíritos impuros. Não é um “Poder” que se exerce “de fora para dentro” sobre as pessoas. É uma Autoridade verdadeira, ou seja, implica a adesão confiante da pessoa, a sua abertura a Jesus. Um poder impõe-se. A autoridade reconhece-se, acolhe-se.

Na lógica do mundo, aqueles que têm Poder, querem que lhes seja reconhecida Autoridade. E muitas vezes não é… Jesus não está na lógica do mundo!
Aqueles que reconhecem a sua Autoridade dão-lhe dentro de si mesmos o Poder de os tocar e libertar. Esse é o Poder de Jesus, o Poder dado pela abertura da Fé, não exercido pela força. Esse é o Poder de Deus…

Porque é que as pessoas reconheciam a autoridade de Jesus e se lhe abriam, muitas vezes, e não a reconheciam aos Doutores da Lei, por exemplo? Porque reconhecer a Autoridade de outro significa comungar com ele. O ensinamento dos Doutores da Lei não era acolhido como ensinamento com “autoridade” porque eles não estavam em comunhão com as pessoas que ensinavam.

A Autoridade de Jesus era reconhecida pelas pessoas também porque ele ensinava com os pés assentes na vida que elas mesmas viviam, no concreto dos dias, das dores, esperanças, belezas e alegrias de todos! Os Doutores da Lei ensinavam sempre com o rabo sentado nos preceitos da Lei, andavam às voltas com minúcias em relação ao sábado, quantos passos se podiam dar para a frente, quantos para trás, quantas vezes devia ser dita esta ou aquela oração, em que posição deviam estar os olhos, a mão direita, a mão esquerda, o que se podia comer, o que não se podia, quando, como, porquê, de que maneira e em que idades se fazia o jejum assim e o assado…

Jesus ensinava as pessoas do lado de dentro da vida que elas viviam! Não andava à volta de preceitos religiosos. Pelo contrário… Sabia muito bem a falta que faz uma moeda que seja numa família pobre, e como se varre a casa toda para a procurar quando se perde (Lc 15, 8-9), sabia a pobreza a que estavam votadas as viúvas (Mc 12, 42-44), conhecia por dentro a aflição de um pai que perde um filho (Mc 5, 22-23; Lc 15, 11-13), comungava com o desejo de festa e alegria que todos levavam dentro (Jo 2, 1-3), participava da sorte daqueles que sofriam porque estavam doentes ou tinham filhos doentes (Mc 9, 17-18), emocionava-se com um pastor que perde uma ovelha e tem que a procurar porque é o rebanho o seu sustento e porque aprendeu a gostar de cada uma (Lc 15, 4-6), sabia como pode ser ingrato o esforço daquele que semeia e vê cair a semente em terras que depois produzem muito pouco (Mt 13, 4-8), experimentava a realidade da pobreza quando tinha que ensinar as multidões a repartir o pão e os peixes para que todos pudessem comer (Mc 8, 2-3) ou quando dizia a quem o queria seguir que “não tinha sequer onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20), incomodava-se também com o peso que significava para a gente simples o preço dos tributos e sacrifícios que eram exigidos pela Lei no Templo de Jerusalém (Mc 11, 15-17) e as “maroscas” que os que por lá mandavam faziam para explorar os pobres (Mc 7, 9-13)…

São tantas coisas… As narrações evangélicas falam-nos de um Jesus sempre do lado de dentro da vida das pessoas simples do seu povo. É aí que vive e ensina! Essa é uma das dimensões fundamentais da sua autoridade. Não é como os Doutores da Lei que ensinavam “de fora”.

E, acima de tudo, existe a Autenticidade. Esse é o coração da Autoridade! Jesus era um homem autêntico, inteiro, verdadeiro. Dele não se podia dizer o que ele mesmo dizia dos fariseus e doutores da Lei: “Tende cuidado com eles… Porque eles dizem mas não fazem…” (Mt 23, 3)

Não era apenas o anúncio de Jesus, a Boa Notícia do Reino de Deus, que era desconcertante! O mais desconcertante de tudo é que ele instituía com os seus gestos o “tal” Reino que anunciava da Proximidade de Deus, do Deus que passa cheio de carinho pelo Seu povo para o curar, consolar e anunciar que tem para todos, TODOS sem excepção, uma Festa preparada, o Banquete do Reino, as Bodas de uma Nova Aliança. Jesus anunciava, e começava ele mesmo a Festa que proclamava no seu anúncio. Não ensinava apenas que Deus tinha preparado um Banquete para TODOS, mas sentava-se à mesa com TODOS os que estavam secularmente afastados da mesa de Deus e das mesas dos que se dizem servos e amigos d’Ele…

Anunciava o carinho de Deus pelos pequenos, e realizava-o! Anunciava o perdão incondicional de Deus, e fazia-o experimentar no coração dos que se lhe abriam! Falava de um Deus com o rosto do Pai do filho perdido que regressa a casa, e acolhia ele mesmo todos os perdidos e enjeitados do seu povo! Esta era a Autoridade que todos reconheciam em Jesus, a inteireza da sua vida, a unidade, a autenticidade do seu anúncio e das suas opções.

Quando o escutavam, todos percebiam que Jesus falava da vida que eles viviam, falava a partir do que experimentavam todos os dias, falava para eles e tinha no centro daquilo que dizia as suas dores, os seus desejos, os seus medos mais recônditos e as suas esperanças mais caladas… e, acima de tudo, estava com eles porque os amava.

Era este amor que o movia… O amor por eles, a comunhão com eles, não o “amor” pela Santa Lei judaica nem o zelo pela pureza das tradições judaicas, como os Doutores da Lei e os fariseus. “Aproximou-se um LEPROSO de Jesus, ajoelhou-se diante dele e disse: Se quiseres, podes curar-me… E Jesus encheu-se de COMPAIXÃO. Estendeu a mão, TOCOU-LHE, e disse: Quero! Fica curado.” (Mc 1, 40-41)

Esta era a Autoridade deste homem… a proximidade, a presença no mundo concreto das pessoas a quem se dirigia, a disponibilidade para tocar e deixar-se tocar pelo lado mais cru da vida, com a vitalidade e a ousadia do Espírito de Deus que introduz nela um impulso de renovação indestrutível e renovador…

As pessoas sentiam-no no seu íntimo… A Autoridade deste homem estava associada à Compaixão que o movia a fazer todas as coisas e à Força do Espírito de Deus que visivelmente actuava nele em favor de muitos como uma nascente de vida nova, curada, liberta, feliz. E, ao ver isto, Jesus nunca deixava de proclamar que Deus ficava contente com cada um dos seus filhos que redescobria o gozo de viver...



SHALOM

14. A Boa Notícia do TEMPO e da HORA de Deus


A missão de Jesus está associada ao “Tempo de Deus”, à “Hora de Deus”. Ele mesmo a começou assim: “Cumpriu-se o Tempo – ou seja, Chegou a Hora – o Reino de Deus está Próximo… Convertei-vos e acreditai na Boa Notícia!” É a PRIMEIRA frase de Jesus no evangelho de Marcos. Qando abre a boca é para dizer isto. E será SEMPRE, ainda que com outras palavras.

Esta frase é o começo da missão de Jesus e devemos senti-la a ecoar permanentemente… Enquanto conta parábolas, toca e cura pessoas, se senta à mesa, entra em Jerusalém ou descansa em Betânia, quando enfrenta as autoridades e é assassinada na cruz… Devemos senti-la a ecoar sempre, como uma proclamação que está a envolver tudo o que acontece.

Os pecadores públicos, os pobres, os doentes… pronto, resumem-se assim facilmente os amigos de Jesus junto dos quais o anúncio do Reino se experimentava como Boa Notícia. Era o Tempo de Deus que chegava, a Hora de Deus… Junto destes?! Aqui está o desconcerto deste anúncio do Reino de Deus, porque estes eram vítimas de marginalização social. Quase todos, por um motivo ou por outro, eram considerados impuros. A Lei de Deus era também Lei social… E estes eram os últimos das suas rubricas. Mas, o pior mesmo, é que não deixava de ser Lei de Deus! Esta gente era considerada impura, mal-querida, marginalizada não só pelos seus, mas pelo próprio Deus! Eram os malditos de Deus, os condenados da Sua justiça, os castigados pelos seus pecados.

Deus era o nome que tutelava toda a condenação e maldição que marginalizava os mais pequenos do Seu Povo. O grande escândalo da missão de Jesus tem a ver com isto… A proclamação de que Deus estava livre das amarras cultuais do Templo e era capaz de escapar-se por entre as letras da Lei para andar por aí à solta a visitar os casebres dos impuros e pobres do Seu Povo.

Jesus anunciava o Tempo de Deus colocando-se ao lado dos pequenos do seu Povo, fazendo renascer neles a Esperança, a Dignidade, a valentia para deixarem de viver como escravos dentro de si, a possibilidade de levantar-se de tantas prostrações e viver uma vida curada, livre e feliz. Não só era possível, como também era vontade de Deus que assim fosse! O que experimentavam estes? Que o Tempo de Deus era o Tempo deles também!

Jesus anunciava que tinha chegado a Hora de Deus! E eles experimentavam que isso significava que tinha chegado a Hora deles também!
A vida renascia na Força do Espírito que transportava aquele homem e a Esperança abria portas que parecia que nem existiam mais dentro do peito de cada um…

O Tempo de Deus era o tempo deles, a oportunidade deles de experimentarem a Passagem de Deus pelas suas vidas como acontecimento de libertação e consolação… A Hora de Deus que João Baptista preparava e Jesus dizia já presente era a Hora deles, dos pequenos, pecadores e malditos de Israel! Ninguém contava com isto… sobretudo eles mesmos! Estes que além de viverem tudo o que viviam, ainda tinham que o aceitar como imposição de Deus e preço de maldição a pagar pelos seus pecados ou pelos pecados dos seus familiares, como sempre lhes tinham ensinado desde o berço…

O que experimentavam com Jesus era admirável… “Deus não está zangado contigo! Deus não está zangado contigo! Ama-te, sai ao teu encontro, deixa tudo para trás para te procurar aqui, para te cuidar… Deus não está zangado contigo! Não quer que te resignes ao que te acontece de mal, mas que te libertes do mal que te habita. Deus conhece e ama-te como ninguém… Sabe de cor quantos cabelos tens na cabeça! Deus ama-te como um pai bondoso que não te joga em cara os teus pecados, ofensas e fugas. Ele abraça-te só, não te joga nada em cara. Deus não está zangado contigo. Deus não quer que vivas triste nem te sintas esquecido ou maldito! Outros te fazem isso, mas falam sem terem escutado o Coração de Deus, sem Lhe conhecerem as entranhas de ternura… Deus não está zangado contigo… E quer curar-te do mal que vive dentro de ti, em forma de ofensa, violência, rancor, desencanto... Deus gosta de ti. Deus gosta muito de ti e procura-te movido pela Sua ternura e pela compaixão que a tua Vida faz acontecer dentro do Seu Coração... Deus não está zangado contigo.”

O Tempo de Deus chegara. Jesus anunciava o Reino já presente, estávamos na Hora de Deus. E essa era a Hora deles… dos pequenos, dos Anawim – encurvados – do seu Povo…

Que Boa Notícia esta, que nos liberta do que nos maldiz! Que Boa Notícia esta… de malditos a amados.

Às vezes, esta Boa Notícia que nos liberta e cura do que nos maldiz, é tão simples… Mas tem que acontecer de maneira a tocar-nos por dentro, é uma Notícia que tem que ser-nos dada por quem se tenha tornado para nós digno de Fé… Lembro-me, por exemplo, do Jesus que proclamava assim esta Boa Notícia: “Os teus pecados estão perdoados!” (Lc 5, 20)

Quantas vezes… Quantas vezes continua a ser esta, ainda hoje, a Boa Notícia que muita gente espera durante anos a fio… O perdão íntima dos seus pecados, a reconciliação-cura da Vida... No evangelho de Lucas, foi dito a um paralítico que logo se pôs a pé de um salto, e hoje continua a ser assim. Eu mesmo já vi, pela experiência desta Boa Notícia, pela experiência do Perdão dos pecados, pela experiência de sentir-se curado e liberto daquilo que nos maldiz, ou seja, do que nos diz mal a nós mesmos e aos outros e por isso nos afasta da verdade do que somos, gente que deu um salto e se pôs de pé. Pegou na enxerga em que tinha jazido tantos anos e a encostou de vez num canto qualquer lá de Casa…

Uma Boa Notícia “desencrava-nos” a Vida, solta-nos de uma cadeia de impotência e maldição em que nos sentimos um elo mais sem hipótese de fuga, liberta-nos do que nos maldiz e põe-nos o relógio dos dias a zero: sentimos que é a nossa Hora!

Quando Jesus anunciava a Hora de Deus, os pobres e malditos que o escutavam sentiam dentro de si que era a Hora deles que estava a chegar também… o Tempo de Deus coincidia com o Tempo deles! Encantadora Boa Notícia, esta de um Deus que se dedica a dar Esperança e Força aos abatidos…


SHALOM

15. As Parábolas são as Notícias do Reino

Ao percorrer os testemunhos evangélicos, há um traço de Jesus muito vincado: era um óptimo contador de parábolas. Não lhe “saíam”, simplesmente, como se tivesse sempre uma historieta na ponta da língua sobre tudo e quase nada. Pensava-as… Preparava-as… Escutava-as na surdina dos dias, dos acontecimentos, das actividades das pessoas… Desenterrava-as como quem descobre uma pérola escondida entre as tantas coisas que estão permanentemente a acontecer…

Era uma forma de comunicar e ensinar muito característica de todas as culturas antigas, ricas em transmissão oral. Jesus era Mestre nesta arte para anunciar o Reino de Deus, a notícia do Deus que vem para estar junto do Seu Povo. “Jesus dizia assim: Com que compararemos o Reino de Deus?! Com que parábola falaremos do Reino de Deus?! […] Com muitas parábolas lhes expunha a Notícia, adaptada às suas capacidades. Sem parábolas não lhes expunha nada. E depois, em particular, explicava tudo aos seus discípulos.” (Mc 4, 30-34)

Jesus nunca dá definições do Reino de Deus, o centro do seu anúncio. Conta parábolas dele, ensina segundo os critérios deste Reino e exprime a sua presença pelos seus próprios gestos e opções. O essencial da vida, de facto, não é de “perceber”, mas de ACOLHER. É para isso que servem as parábolas… Para propor, para abrir a vida de quem escuta a uma nova maneira de a viver, para apontar caminhos e aproximar de qualquer coisa que está ao alcance, não através de compreensões teóricas, mas de mudança de valores e atitudes.

Uma parábola é uma “fotografia” instantânea tirada num lugar qualquer que não o que vivemos e onde vemos que as coisas acontecem de maneira diferente… O que fica em causa, depois, não é acreditar ou não acreditar, concordar ou não concordar, mas sim aceitar ou não aceitar que aquilo possa fazer sentido também no “aqui” de cada um. Jesus contava as parábolas como forma de anunciar a Boa Notícia! Dei por mim a meditar nisto há uns dias… e a pensar no que é uma “notícia”…

Estamos hoje numa era de comunicação global em que, num segundo, podemos entrar em contacto com o outro lado do mundo. Estamos num tempo de grandes empresas de comunicação que têm os seus “Enviados Especiais” nos pontos mais quentes do planeta para nos darem as notícias do que por lá se passa… E é impossível não pensar na Boa Notícia de Jesus a partir desta experiência que fazemos.

Uma notícia começa por ser um dom, uma revelação. É um conhecimento que nunca poderíamos ter se não nos fosse dado, transmitido por outro. É um conhecimento ao qual não se chega por si mesmo mas por revelação. E o que é a Boa Notícia – em grego, Evangelho – senão isto mesmo?! Dom, Revelação… Na linguagem bíblica chama-se também a isto “Mistério”, que não é o “enigma” da nossa linguagem quotidiana, mas é o conhecimento ao qual não se chega por estudo ou dedução, mas apenas por revelação, transmissão, dom gratuito. Mistério, em linguagem bíblica, não significa “enigma”, mas “revelação” daquilo que não se alcança sozinho e que nenhum conhecimento esgota.

Além disto… Uma notícia liga dois mundos, aproxima-os. Quando nos chegam as notícias do que se passa em qualquer ponto do globo, sentimo-nos unidos a esses acontecimentos, próximos das pessoas envolvidas, parte da sua sorte. Lembro-me, há uns anos atrás, do movimento que se gerou no nosso país por causa da causa Timorense. Começaram a chegar-nos notícias dos atentados que por lá o regime indonésio fazia à liberdade e dignidade daquela gente, e sentimo-nos todos próximos deles! Foi um movimento de solidariedade único em torno de uma causa que tinha a ver com um povo do outro lado do mundo! Este é o poder de uma notícia, o poder de ligar pessoas e aproximar mundos.

É por aqui que entendo as parábolas de Jesus… Normalmente, ensinaram-nos a encontrarmo-nos com as parábolas de maneira muito religiosa e moralista, como se fossem historinhas edificantes ao fim das quais devemos perguntar-nos sobre a “moral da história”. Ensinaram-nos quase sempre a lê-las como se fossem apenas “símbolos do que nós somos e fazemos”… E depois temos grupos e homilias em que não se ouve mais nada senão coisas destas: “Esta parábola de Jesus diz-nos que nós isto… que nós fazemos assim e assado… que eu devia tal tal… que eu isto… que nós o outro…”

É importante libertarmo-nos desta perspectiva moralista e doentia em que nunca chegamos a sair de nós mesmos e entendermos as parábolas que Jesus conta como NOTÍCIAS DO REINO DE DEUS! Como um “Enviado Especial” que nos conta as Notícias do Reino de Deus, a maneira como as coisas acontecem nesse recanto do mundo que precisamos que nos dêem a conhecer porque, sozinhos, nem nos daríamos conta… As parábolas não são as histórias moralizantes de Jesus nem nós somos os seus “meninos da catequese”, mas sim as histórias do Reino de Deus, as Notícias do que por lá se passa…

Como qualquer Notícia, são um dom, uma revelação, uma transmissão à qual não chegaríamos por nós mesmos. Por isso nos surpreendem, nos “apanham” desprevenidos… E movem-nos por dentro, porque nos ligam a uma realidade que está fora de nós, transcende as fronteiras limitadas das nossas rotinas quotidianas, convida-nos a sairmos de nós mesmos, aproximam-nos do mundo que nos revelam…

A própria palavra “parábola” vem do verbo grego “parábalô” que significa exactamente “Aproximar-se”! As Notícias do Reino de Deus desvendam-nos esse mundo e aproximam-nos dele. Mas o Reino de Deus não é como Timor… Não está diante dos nossos olhos, é verdade, mas também não está do outro lado do planeta nem da vida. Por isso, o Reino de Deus é um mundo que precisa continuamente de ser desvendado, como todas as coisas que não estão diante dos nossos olhos mas dentro deles. Do Reino de Deus Jesus dizia que “estava PRÓXIMO” e também que “não está ali nem acolá, mas está NO MEIO DE VÓS” (Lc 17, 21)

Se acreditamos em Jesus e, ao mesmo tempo não "vemos" o Reino de Deus a acontecer, é porque precisamos de aprender a ver de outra maneira...



SHALOM